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Política com Assinatura
"Governo tem estratégia de pura e simples mesquinhez", acusa coordenador do BE
"O Governo tem uma estratégia de pura e simples mesquinhez", acusa o coordenador do Bloco de Esquerda (BE).
Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas
Fala mesmo de “raiva que deriva para a extrema-direita" e dá como exemplo disso a criação da Prestação Social Única (PSU) que prevê a participação dos beneficiários da PSU em atividades de solidariedade social até um limite de 15 horas semanais.
José Manuel Pureza não compreende o porquê de sujeitar a trabalhos sociais pessoas que recebem a PSU e que muitas vezes se trata de grávidas em risco ou reformados por invalidez. “Acha mesmo que essas pessoas devem sujeitas a um trabalho social?”, questiona.
“Se há trabalho para ser feito, porque é que não se criam postos de trabalho para esse efeito?”, sugere o líder bloquista que acusa esta medida de ser "claramente inspirada no programa do Chega. O Chega vibra de contente com esta questão porque é claramente para humilhar quem tem menores rendimentos”.
José Manuel Pureza entende que o modelo da PSU, tal como está desenhado, “tem um intuito provocatório. É pôr as pessoas a falar da necessidade de «mandar os malandros que não querem trabalhar, trabalhar nas matas»”.
“PSD é a muleta do Chega”
José Manuel Pureza não é brando para com o primeiro-ministro nesta entrevista. “O Governo tem vindo a refinar a sua iniciativa política em aproximação à extrema-direita" acusa, para mais à frente atirar: “até agora poder-se-ia dizer que o Chega era a muleta do Governo ou do PSD, agora é o contrário. Agora é o PSD a ser a muleta do Chega”.
O coordenador do BE afirma mesmo que “o PSD é quem leva as propostas do Chega à frente para criar a maioria que o Chega, sozinho, não é capaz de criar”.
A editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, pergunta: “não vê nada de positivo na governação de Luís Montenegro?”. José Manuel Pureza responde: “tenho uma grande dificuldade (em ver)”. Para José Manuel Pureza está à vista de todos de que o Governo quer destruir o Estado Social e dá como exemplo a Saúde. “O caso da Saúde é absolutamente grotesco”, refere.
Relembra que o Serviço Nacional de Saúde é, muitas vezes, apontado como a grande conquista do regime democrático português, mas “está a ser completamente apoucado, desqualificado, por esta política que tem sempre como intuito desviar recursos para o setor privado”.
Ministra do Trabalho quis “apoucar” decisão dos sindicatos, acusa Pureza
José Manuel Pureza acusa a Ministra do Trabalho de querer “apoucar” a decisão dos sindicatos em sede de negociação da reforma laboral.
No podcast da rádio pública, Política com Assinatura, a Ministra Maria do Rosário Palma Ramalho disse que o Presidente da República “empoderou a UGT no sentido que tornou dispensável chegar a acordo” em sede de Concertação Social sobre a revisão da legislação laboral.
O coordenador do BE responde a essas declarações dizendo que “há muitas maneiras de apoucar aquilo que é a decisão do mundo do trabalho”.
“Isso é dizer mal do Presidente da República, é dizer mal da UGT e a estratégia é exatamente essa”, acusa.
"O que aconteceu foi que os trabalhadores dos sindicatos representados por essa central sindical entenderam que não havia nenhuma condição de aceitação” daquilo que o Governo quis negociar, defende o líder bloquista.
Refere por isso que a greve geral de dia 3 de junho "vai ser uma greve geral grande”. O coordenador do BE prefere não comentar a atitude do Partido Socialista (PS) em relação ao combate ao pacote laboral.
José Manuel Pureza diz apenas que espera que “o PS esteja do lado certo que é do lado da rejeição de uma estratégia de redução dos direitos de quem trabalha e da redução de rendimentos”.
“Não vale ficar em cima do muro”
José Manuel Pureza recusa chamar-lhe «uma frente de esquerda», mas admite que as diversas esquerdas andam a conversar entre si. “Diálogo com partidos políticos? Sim!”. O BE já reuniu com o PCP, e pediu reuniões ao PS e ao Livre, encontros que aguardam marcação.
“Toda a esquerda está desafiada a encontrar um programa, um conjunto de propostas políticas. É uma tarefa com a qual toda a esquerda está confrontada”, mas o líder bloquista avisa: “não vale ficar em cima do muro, ou seja, ou se está de um lado ou se está do outro”.
A forma que esse diálogo possa vir a tomar, Pureza responde que “isso a seu tempo” e desabafa: “tomara eu que houvesse caminho no sentido de aproximação de posições sobre questões concretas”.
Indiretamente admite que a esquerda pode não estar ainda preparada para apresentar uma solução em caso de eleições antecipadas, mas “mais do que reconhecer (se estamos ou não preparados) o meu compromisso é fazer com que essa preparação posso existir”.
Chega não é um partido sério, acusa Pureza
Nesta entrevista ao podcast da Antena 1, Política com Assinatura, José Manuel Pureza reconhece que muitos militantes do BE votaram extrema-direita porque “a extrema-direita teve essa capacidade de juntar grito à raiva. Mas não resolveu problema rigorosamente nenhum”.
Pureza até admite haver “razões para a zanga” devido a salários baixos, desemprego, precariedade, entre outras questões sociais e económicas, mas acusa o partido de André Ventura de não apresentar soluções.
“A posição do Chega em relação a questões essenciais da vida das pessoas é aquela que for determinada pelo vento dominante a cada momento. E isso não faz um partido sério”, acusa o coordenador do BE para quem “o Chega está profundamente desorientado. Há uma grande desorientação”. Assumidamente católico praticante, José Manuel Pureza foi questionado pela editora de política da Antena 1, Natália Carvalho, sobre as semelhanças entre si e outro líder partidário católico, André Ventura, e se se considera melhor católico do que Ventura.
Sem comentar, José Manuel Pureza diz-se defensor de uma religião que cuida dos pobres, é solidária para com quem sofre e que tem “arrojo na imaginação de uma sociedade diferente”.
Podem frequentar a mesma missa diz, mas “provavelmente não estaremos com o mesmo espírito, seguramente não estaremos com o mesmo espírito”.
E acrescenta: “não gostaria de viver num país em que a condição crente fechasse o campo das políticas possíveis. Isso seria um país teocrático e eu rejeito totalmente essa hipótese”. Nesta entrevista Pureza falou ainda da chamada geringonça que uniu PS, BE e PCP entre 2015 e 2019.
“Não há nenhum arrependimento”, garante, até porque, diz, “com todas as suas imensas limitações, esse foi um momento em que se deixou de falar de retração de direitos e rendimentos”.
“Não foi uma frente, não foi uma aliança, não foi uma coligação, foi um momento de imensa negociação política”, conclui.
A entrevista a José Manuel Pureza, coordenador do BE, foi conduzida pela editora de política da Antena 1, Natália Carvalho.